16 abril 2013

Deus no topo do mundo dançando Singin' in the rain



Nunca imaginei que um dia fosse matar um ser humano e destruir várias vidas em questão de segundos. O infeliz estava com o cano da minha arma enfiado dentro da sua boca, como se fosse um pênis pronto para ser sugado. O desespero estava claro em seus olhos porque no fundo do seu cérebro homo sapiens ele sabia que quem mandava naquela porra era eu, eu tinha o controle sobre o mundo, estava no topo da cadeia alimentar porque tinha aquele pequeno artefato de aço entre os meus dedos e enfiado em sua garganta. Apertar ou não apertar o gatilho? Um simples toque e eu iria preencher a parede de trás com os restos do seu cérebro, seria uma obra digna de Salvador Dalí, imagine, sangue e massa encefálica para todo lado. Fiquei imaginando o que aquele sujeito, ajoelhado aos meus pés, estaria pensando ao saber que a morte galopava em sua direção. Depois de um tempo, ele começou a implorar pela vida, na verdade, ele se lembrou que tinha uma vida, família, amigos e um gato chamado Sansão. Acho que é o instinto que nos faz implorar, suplicar, para que nossa infeliz vida não se vá num simples sopro, ou melhor dizendo, num simples puxão no gatilho da arma. Sempre achei o ser humano um saco, somos todos porcos que comem o próprio lixo, nadando na lama e achando que tudo está certo, tudo está bem. Nos entupimos de remédios para prolongar essa existência que já está fadada ao sofrimento, a vida baseada na busca do desejo inalcançável e na presença do tédio quando não mais desejamos algo. A vida pautada em produzir para ganhar dinheiro e logo depois gasta-lo, passar horas do dia em caixas metálicas que nos levam para o trabalho- casa, não ter tempo nem para dormir ou deixar nosso instinto animal sair. A razão nos emburrece, nos afasta do que realmente é importante. Resolvi acabar com o sofrimento do infeliz no estilo Tyler Durden de ser, afinal, eu estaria libertando a sua própria alma dessa existência infeliz. Apertei o gatilho e preenchi a parede de trás com uma linda arte dadaísta banhada em sangue.


Ana C.
Para ler escutando:

4 comentários:

Célio Falconiere disse...

Adorei esse texto.

Lopes Carine rs disse...

Schopenhauer, Nietzsche, tarantino, laranja mecânica, jogos mortais e clube da luta num texto só.

Luíza disse...

Ótimo texto!

Reinaldo B disse...

Adorei seu texto Ana :D !!