22 novembro 2014

Notas do rodapé: Morrer






Ruim é quando a alma morre.... Mas o corpo não
Somos obrigados a sucumbir dentro da própria existência 
Num eterno afogamento do ser
Não há remédio que cure
Ou amor que salve
Não temos saída 
A não ser
Deixar de existir
Para renascer em um novo tempo


Ana C.

24 outubro 2014

Bloco do eu ( nós) sozinho



Sentir saudades é relembrar dos seus abraços, amasso, afeto e amor
Os nossos papos, corpos e laços 
Sentir saudades é perceber que você se foi no vento
Ah, pretinha.... 
A saudade é uma velha companheira
Me guia pelas noites, tragos e corpos
Quando saio no bloco do eu sozinho
Para reencontrar o nosso samba
Perdido pela avenida nesse carnaval 

Ana C.

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19 outubro 2014

Notas de rodapé: sobre a monogamia




A monogamia é uma relação de poder que alimenta a ideologia do senhor -escravo. Nela, as pessoas abdicam de sua liberdade e desejos para virarem objeto de posse do outro.  Como diria rauzito: o amor só dura em liberdade, o ciume é só vaidade.

Ana C


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12 outubro 2014

Passarinha

Voa, passarinha 
Voa
Sem ter hora para voltar
Não se apresse para me encontrar
O nosso amor não tem hora
Não tem lugar
Voa, passarinha 
Deixe as suas asas reluzirem ao sol
Mostre para o mundo que você é livre
Não se preocupe comigo, passarinha
Porque um rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre
Voa, passarinha
Voa
Não tenho pressa para te amar
O nosso tempo é diferente dos outros tempos
Voa, passarinha
Voa
Você sabe para onde voltar
E eu sei que irá voltar
Voa, passarinha
Voa


Ana C.

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12 agosto 2014

Insustentável leveza do não ser


 É, moça
O céu borrou a cor 
Lá está de volta a escala de cinza que tanto me assusta
O café esfriou e os dias voltaram a ser iguais
A melancolia já está me aguardando naquela velha praça
Talvez, moça
Eu tenha voltado a ser o zé que acorda já deitado
Aquele mesmo zé ninguém que não sabe lidar com a vida
Quem sabe, moça
Já não esteja na hora de partir
Destruir
Descobrir
Reconstruir 

Ana C.

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24 julho 2014

Meu amor é teu


Ilustração: Bel

Teu coração estava largado 
Maltratado
Cheguei devagar
Como quem não quer nada 
Fui cuidando aos poucos 
Mostrando que você poderia confiar em mim
Até que um dia eu já tinha renovado tudo
E hoje, nossas almas estão em harmonia


Ana C.



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13 julho 2014

Notas da madrugada


Mulheres são sereias
Elas enganam
E te largam para morrer no oceano
Ainda ficam rindo enquanto você se afoga
A última imagem que seus olhos desesperados e sem oxigênios poderão enxergar
Serão elas
Odeio as mulheres
Mas que droga
Sou uma

Ana C.
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22 maio 2014

Camaleoa



Cores, plumas e paetês são a sua matriz
Sempre fantasiada para agradar olhos inocentes
Camaleoa,  leva a vida ao deus Dará
Cores primárias e secundárias moldam a sua personalidade
Um arco íris ambulante
Se está frio, torna-se azul
Se está quente, fica vermelha
Perdida em uma aquarela da ilusão

Ana C.
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18 abril 2014

Constelação de Capricornus



Estranha beleza lhe concede este ar frio e egoísta 
Sempre a procura da vitória na vida
Ludibriando corações sonhadores
Destruindo vidas
Correnteza sem direção
Capaz de provocar os mais intensos sentimentos 
Abraços calorosos apesar do coração frio
Porém, suicida quem está ao seu lado para conseguir a próxima vítima
Do alto da sua  montanha, cercado pelas florestas
Existe Capricórnio 
Talvez um deus agridoce ou apenas uma criança perdida
Capricórnio, as melhores e mais cruéis  aventuras da minha vida 
Capricórnio, que hoje reside numa montanha longe do meu olhar
Ana C.

28 março 2014

Lírios do campo



                                                             
Ilustração: Célio Sampaio


Vamos lá, menina
O sol está dando olá
E mais um dia vem vindo

A luz entra pelo quarto
E aquece  o seu corpo
Porém, ela não consegue alcançar as feridas que você esconde do mundo
Lá é um lugar frio mas você está acostumada a ser forte desde que nasceu

Não se apresse, menina 
Ainda temos tempo
Tempo para falarmos bobagens e rir
Tempo para amenizarmos as dores da vida
Tempo para vivermos o momento
Tempo para nos conhecermos 

Você pode não saber, menina
Mas você tem um dom raro
Você é capaz de levar alegria para a vida das pessoas
É como um sol iluminando um dia cinzento 
Você consegue mostrar que ainda existe esperança nessa loucura chamada vida 

Só quero que saiba , menina
Que quando você aparece, a minha vida ganha mais um pouco de sentido 
Você é uma flor rara que eu encontrei num dia chuvoso 
E agora, menina
Quero cuidar deste jardim
Ana C.

05 fevereiro 2014

Devaneios de pensamentos nietzschianos.




Sobrevivente 1: Sempre começamos nossos diálogos com pequenos devaneios sobre o mundo. Somos pessimistas da pior espécie possível e pensadores universais destinados a confusões mentais.

Sobrevivente 2: Creio que os nosso polos cerebrais vivem em conflito. São como a Alemanha e a Itália na corrida da unificação territorial, o médico e o monstro, o psicopata e a criança sorridente.

Sobrevivente 1: Concordo com você. As pessoas nunca conseguem entender o que se passa conosco porque nós também não nos entendemos. Vivemos mudando de ideia  nesta eterna dança de pensamentos formados por palavras e imagens sem nexo.

Sobrevivente 2: Como já disse  Cazuza: vivo num clip sem nexo, um Pierrot retrocesso meio bossa nova e rock n'roll.

Sobrevivente 1: Vai ver a culpa nem é nossa e sim desta humanidade, a época, o século... Estamos vivendo na era de Aquarius do peixe afogado.

Sobrevivente 2: Quer uma cerveja? 

Sobrevivente 1: Quero, beber é o que nos resta no momento. Vamos analisar os humanoides.

Sobrevivente 2:  A ultima agora foi a do caminhoneiro que deu strike na passarela. O desgraçado deveria está muito louco e matou umas 5 pessoas.

Sobrevivente 1: Em todo início de ano algumas almas são arrebatadas. Deve ser Deus brincando de ser criança malvada ou é uma autoprogramação do mundo para diminuir o número de habitantes.

Sobrevivente 2: Imagino aquelas pessoas na hora da morte, morrer esmagado não deve ser nada agradável. As pessoas estavam passando na passarela e de repente “ saíram voando’’ e suas vidas tiveram fim. Outras simplesmente foram esmagadas.

Sobrevivente 1: A morte nos segue desde o momento que nascemos. O ser humano é uma pequena criatura prepotente com um prazo de validade extremamente pequeno comparado a toda grandeza que existe neste mundo.

Sobrevivente 2: Eu não tenho medo de morrer, uma hora ela sempre chega. O que nos resta é definir qual rumo iremos tomar nessa loucura toda. As pessoas passam tempo demais enfiadas em cubículos de escritório, preocupadas com problemas pequenos e se esquecem que o fim pode ser a qualquer momento.

Sobrevivente 1: Por exemplo aquelas pessoas que morreram na passarela, de repente elas estavam passando por lá e pensando nas contas para pagar ou na briga com a namorada... E de repente, não tinham mais nada para se preocupar, estavam voando rumo ao fim.

Sobrevivente 2: Basicamente isso, as pessoas que escutarem nossa conversa irão dizer que somos pessimistas mas que se foda-se. Todos encontram o fim uma hora ou outra.

Sobrevivente 1: É verdade, um brinde para a morte que espreita na esquina.

Sobrevivente 2: Um brinde. 

Ana C.

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05 janeiro 2014

O naufrágio do Yellow Submarine



Sobrevivente 1: Estou melancólico hoje.

Sobrevivente 2: Por que?

Sobrevivente 1: E eu lá tenho motivos para ficar assim?

Sobrevivente 2: Bem vindo ao clube.

Sobrevivente 1: As vezes tenho medo de ser depressão porque não irei conseguir vencer sozinho.

Sobrevivente 2:  Não acho que seja depressão, deve ser só uma fase ou é da nossa idade mesmo. Estamos na adolescência da fase adulta. É complicado viver esse momento, ainda mais nos dias de hoje onde somos condicionados a eterna sensação de vazio e a ter necessidade de algo que talvez não exista.

Sobrevivente 1: Acho que é a falta de tempo. Falta de tempo para rir  de verdade, tirar um dia para ficar só de pijama  sem fazer absolutamente nada.

Sobrevivente 2:  A culpa disso é da vida atual e este ritmo louco que veio com ela. É excesso de informação para todo lado e as relações tornaram-se mecânicas. As pessoas utilizam o Facebook para falar por meio de uma tela  com várias pessoas diferentes sobre diversos assuntos. O ser humano esqueceu como é ser humano.

Sobrevivente 1: O nosso vazio existe porque nós renegamos perder a nossa alma para este sistema. Não queremos ser condicionados ao eterno vazio, esta âncora que insiste em habitar o nosso peito e nos levar para baixo até nos sufocar.

Sobrevivente 2:  Só falta alguém injetar uma USB em nossa mente para virarmos uma máquina completa. As vezes tenho vontade de fazer como o Hemingway e atirar em mim para tentar remover esse vazio eterno. Se não der certo, irei libertar minha alma deste corpo pesado para que ela possa ser livre. A morte é bela.

Sobrevivente 1: Já eu me imagino enchendo os meus bolsos com pedras e me jogando no Rio Ouse, como a Virginia Woolf. A sensação de morrer afogado deve ser bela porque você afunda lentamente e aos poucos parece que o mundo fica lento junto com você. É a dança da libertação.

Sobrevivente 2: Pois é. Quer um café?

Sobrevivente 1: Quero.

E os dois sobreviventes deram uma pausa para o café como se aquele momento significasse uma pausa para o mundo. Naquele momento, nenhuma dor poderia incomoda-los. Eles estavam livres como as almas dos seus escritores favoritos.

Ana C. 

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