05 janeiro 2014

O naufrágio do Yellow Submarine



Sobrevivente 1: Estou melancólico hoje.

Sobrevivente 2: Por que?

Sobrevivente 1: E eu lá tenho motivos para ficar assim?

Sobrevivente 2: Bem vindo ao clube.

Sobrevivente 1: As vezes tenho medo de ser depressão porque não irei conseguir vencer sozinho.

Sobrevivente 2:  Não acho que seja depressão, deve ser só uma fase ou é da nossa idade mesmo. Estamos na adolescência da fase adulta. É complicado viver esse momento, ainda mais nos dias de hoje onde somos condicionados a eterna sensação de vazio e a ter necessidade de algo que talvez não exista.

Sobrevivente 1: Acho que é a falta de tempo. Falta de tempo para rir  de verdade, tirar um dia para ficar só de pijama  sem fazer absolutamente nada.

Sobrevivente 2:  A culpa disso é da vida atual e este ritmo louco que veio com ela. É excesso de informação para todo lado e as relações tornaram-se mecânicas. As pessoas utilizam o Facebook para falar por meio de uma tela  com várias pessoas diferentes sobre diversos assuntos. O ser humano esqueceu como é ser humano.

Sobrevivente 1: O nosso vazio existe porque nós renegamos perder a nossa alma para este sistema. Não queremos ser condicionados ao eterno vazio, esta âncora que insiste em habitar o nosso peito e nos levar para baixo até nos sufocar.

Sobrevivente 2:  Só falta alguém injetar uma USB em nossa mente para virarmos uma máquina completa. As vezes tenho vontade de fazer como o Hemingway e atirar em mim para tentar remover esse vazio eterno. Se não der certo, irei libertar minha alma deste corpo pesado para que ela possa ser livre. A morte é bela.

Sobrevivente 1: Já eu me imagino enchendo os meus bolsos com pedras e me jogando no Rio Ouse, como a Virginia Woolf. A sensação de morrer afogado deve ser bela porque você afunda lentamente e aos poucos parece que o mundo fica lento junto com você. É a dança da libertação.

Sobrevivente 2: Pois é. Quer um café?

Sobrevivente 1: Quero.

E os dois sobreviventes deram uma pausa para o café como se aquele momento significasse uma pausa para o mundo. Naquele momento, nenhuma dor poderia incomoda-los. Eles estavam livres como as almas dos seus escritores favoritos.

Ana C. 

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